Gramado e Canela já são clichê, no bom sentido, para quem passa pelo Rio Grande do Sul. Mais ou menos como Campos do Jordão em São Paulo, Ouro Preto em Minas, etc. Nem por isso devem ser excluídas de um roteiro de visitas; muito pelo contrário. Gostamos e procuramos sempre o que não temos; queremos ver aqui lugares que lembrem a Suíça, Alemanha, neve, pinheiros, etc. E os suíços, suecos, alemães e cia. querem praias tropicais com bastante sol, coqueiros e águas cristalinas. Isso é um motorzinho maldito chamado “desejo” que Freud já explicou muito bem, então não serei eu a me estender nesse assunto.
Confesso que, apesar de toda a minha experiência em viajar sozinho, esse é o tipo de lugar que eu não teria coragem de ir “by myself”. Dar de cara dentro de uma van ou no restaurante com um monte de casalzinhos em lua-de-mel passeando para lá e para cá, comprando chocolatinhos, cachecóis e outras coisas românticas mais iria fazer com que eu me sentisse um cachorro abandonado, sendo olhado por todo mundo com um misto de pena e comiseração… Daí para a depressão dentro do quarto do hotel seria um minúsculo passo. Quantidades industriais de álcool, fluoxetina e rivotril seriam necessárias, provocando escassez no mercado global e lançando o mundo num abismo ainda mais profundo da crise econômica que ora nos aflige. Viu do que vocês escaparam?
Ainda bem que eu estava com a minha amiga e pudemos curtir o lugar. Curioso que ela fez essa viagem sozinha há mais de dez anos e se sentiu bem, mas também jurou que só voltaria acompanhada (!)
Quase off-topic: para viajar sozinho, são bons os locais de ecoturismo, capitais estrangeiras (brasileiro é muito gregário, só anda em casal ou em grupo. Gringo viaja o mundo inteiro sozinho e não está nem aí).
As duas cidades são praticamente contíguas; apenas uma pequena rodovia as separa.
É impossível não tirar uma foto em Canela do museu Mundo a Vapor (infelizmente fechado no dia 01/01) com sua clássica locomotiva desabada do segundo andar. Na verdade, essa montagem reproduz um acidente verdadeiro ocorrido na Gare Montparnasse, em Paris, em 1895, onde o maquinista (devia ser estagiário e /ou tinha tomado umas e outras) destrambelhou com a composição, descarrilhou do pátio de manobras e caiu do segundo andar, atravessando a parede com a locomotiva, que se esborrachou no chão. Isso mostra que o transporte público é uma porcaria já faz tempo…

Engraçado, acontecia isso com o meu Ferrorama de vez em quando…
O interessante é que a própria administração da rodovia entre Gramado e Canela (RS-235) entra na brincadeira, pois antes de chegar ao museu, há uma placa de trânsito alertando: “Cuidado! Acidente no Mundo a Vapor a 500 metros! Reduza a velocidade.”
Algo que você irá notar na estrada e em toda a região é que o lugar é a capital das hortênsias. Estão em todo lugar, e parecem até bolas de isopor ou papel pintadas de azul espalhadas nos canteiros e jardins. É muito bonito de se ver, principalmente para quem não é do Sul.

Aqui, a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes em Canela, em estilo gótico inglês e com um carrilhão de 12 sinos. Só para variar um pouco do barroco português das outras cidades do Brasil…


Aqui, a avenida em frente à Matriz, toda decorada com querubins para o Natal.

Fomos no Alpen Park, onde a principal atração, entre outras, é um trenó controlável por alavancas de aceleração e freio, para duas pessoas, que percorre um circuito aventuresco de uns cinco minutos. É uma montanha-russa onde você controla o carrinho. Infelizmente, começou a chover e pedimos o dinheiro de volta. Não preciso dizer que a chuva passou assim que saímos de lá.
Fomos a Gramado e fizemos uma parada para almoço no Carlitos´s Restaurante – Av. das Hortênsias, 1.040, (54) 3286-4523 – Gramado, onde saboreamos um fondue. Tinha carne de cervo (o bambi – já vejo as meninas dizendo “taa-dii-nhooo”) no cardápio. Senti-me tentado a experimentar, mas o preço era proporcional à raridade de se encontrar um cervo no Brasil…
E uma outra parada para se comprar chocolates na Florybal – R. Tristão de Oliveira, 1200 – Floresta – (54) 3286-2284… Hora de sair da dieta – e quem disse que eu estou de dieta?

Voltamos a Canela (esse zigue-zague todo foi devido às condições climáticas do dia – uma hora era melhor ir para Gramado, outra para Canela, e assim fomos) para ir no Parque do Caracol, onde se encontra a cascata do Caracol. Entrada R$ 8,00 (mais R$ 4,00 para subir no observatório panorâmico, se quiser).

O parque é muito bonito. Há trilhas e um passeio de trenzinho. Há também um mirante logo ao nível da entrada no parque e outro com 700 degraus mais abaixo. Este eu não fui – a preguiça é um pecado capital.
E há também o já citado observatório. Vale a pena ir, porém o problema é que qualquer foto que você tirar vai sair com o seu reflexo ou dos outros na imagem, já que as janelas são fechadas…

Um close na cachoeira.

E mais hortênsias e um monumento à família desconhecida…


E voltamos a Gramado para uma de suas maiores atrações – o Mini Mundo. Este parque temático começou a ser construído por um avô, imigrante da Alemanha, para sua neta, numa escala de 1:24, até se transformar no que é hoje – um grande espaço de 3.000 m² com construções da arquitetura européia, brasileira e argentina.
Logo que se chega, deparamo-nos com o porto de Porto Alegre

E o Gasômetro, claro.

Várias construções mostrando o elevado padrão de vida e IDH dos habitantes do Mini Mundo (último censo: 1.270 mini-habitantes)



O alto padrão de vida permite que todos circulem pela cidade com seus Porsches, BMWs e Mercedes (e também porque essas miniaturas são mais fáceis de achar da Maisto e da Burago …rsss).
Parece não haver flanelinhas nem assaltos no sinal, mas um ferro-velho de desmanche foi localizado. As autoridades devem tomar logo providências, antes que vire um (a)… (inserir um nome de 99% das cidades do MUNDO. Viram? Não fui injusto com o Brasil).


Igreja de Ramsau, celebrando um casamento. O censo vai aumentar.

Como se vê, os serviços de manutenção e limpeza urbana são uma beleza.


Castelo de Lichstenstein. Durma uma noite e veja os fantasmas dançando “Thriller” do Michael Jackson, quando você for ao banheiro de madrugada.

Torre de TV de Hamburgo. A mídia aqui é totalmente democrática. Pode-se sintonizar qualquer canal, desde que seja do governo. De 6 da manhã até meio-dia, discurso de Chávez; de meio-dia às 23:00, discurso de Fidel Castro. De 23:00 às 03:00, BBB. De 03:00 às 6:00, barras coloridas na tela.

O povo tem consciência ecológica e usa meios alternativos de produção de energia.


Também há os problemas típicos de uma cidade – uma kombi resolveu descarregar mudanças em horário impróprio, atravancando o trânsito e causando protestos dos motoristas indignados, sendo que um já estava de trava multilock na mão ameaçando quebrar tudo, até ser contido pela guarda municipal. Faz-se necessário um choque de ordem.

Aqui a prefeitura, que deve cobrar o IPTU mais alto do mundo. Há acusações de nepotismo, ainda não comprovadas pois é difícil estabelecer relações de parentesco entre os bonequinhos (a não ser que tenham vindo na mesma caixa).

E eis que de repente, presenciamos outro casamento na Igreja de São Francisco de Assis, de Ouro Preto (não falei do barroco português? Taí ele…)

O belíssimo (e mais alta construção do parque) Castelo Alemão de Neuschwanstein, que inspirou o da Cinderela da Disney.

E se você vier de avião, você chegará pelo Aeroporto Internacional de Bariloche (!!!) com direito a sons de última chamada, turbinas, etc, e a Cordilheira dos Andes ao fundo.


E depois de sair do aeroporto, você pode pegar o metrô – de Hamburgo !!!!!


Aqui, mochileiros fazendo a Trilha Inca (estou bebendo umas cervas enquanto escrevo isso. Mas também, depois de Ouro Preto, Bariloche e Hamburgo uma do lado da outra, vocês queriam o que?).



E confirmando o alto IDH da cidade, vemos a zelite com suas casas com piscinas e lagos artificiais, todos cuidados contra a dengue.

Mais uma fonte alternativa de energia. O aquecimento global já era.

E aqui, o lado obscuro do Mini Mundo: o lumpenproletariat sendo explorado em vis minas de carvão e transporte de cargas em perigosas ferrovias, sem sindicalização nem ticket-refeição. Não é uma rima nem uma solução.


E enquanto isso, a zelite se diverte nas praias paradisíacas do Mini Mundo, saboreando seus queijos de coalho, camarões no espeto, cerveja, passeios de buggy, deusas bronzeadas, torneadas, surfistas, saradas e desconcertantes de biquíni, tudo isso com muita axé music. E a praga dos quadriciclos já chegou aqui, como se vê abaixo.

E por fim, uma exposição de carros antigos, que fechou uma rua e causou mais transtornos no trânsito. Vemos aqui VWs, Mavericks, Belairs, Simca- Chambords, Opalas e Mustangs. Todos devendo IPVA.

Bom, depois da loucura momentânea (a momentary lapse of reason) do blogueiro, fomos ao Lago Negro, um lago artificial em Gramado com pedalinhos e trilhas em volta do lago.


E sempre um pato paga o pato. Mas ele só falará na presença do seu advogado.

Aqui a famosa rua coberta de Gramado, ainda decorada para o Natal.


Palácio dos Festivais, abaixo.


Catedral de Gramado e visão geral da cidade. Tudo bonitinho e o que se espera de um lugar como esse.

Bom, enfim voltamos para o hotel, exaustos. Tivemos um ano-novo feliz. Espero que vocês também tenham tido.
Escrito por Arthur 


Escrito por Arthur 
