E , devidamente alojado, no dia seguinte fui curtir um pouco do resort. Estando praticamente em cima d’água, quem iria à piscina do hotel, não é mesmo? Resolvi ficar no deck em frente ao bar El Duende, (última foto do post anterior, “de pernas para o ar”) que tem uma escadinha para mergulhar nas tépidas águas caribenhas. Como já disse, o snorkel é gratuitamente fornecido pelo hotel, durante duas horas.
Caso você não saiba, lembre que nessa parte do mundo (talvez por influência norte-americana) não pegam bem nossas sungas e micro-biquínis (que pena…). Use biquínis ou maiôs mais comportados ou bermudões de surfista, de tactel, como eu fiz. OK, você vai ficar com as coxas e o quadril brancos e o resto queimado, mas que se há de fazer…
Se você prestar atenção, irá encontrar uma parte da rica fauna marinha já naquele pequeno pedaço de água (lembre-se das delimitações de segurança das bóias). E com a vantagem de ter um serviço de bar à disposição.
Procure alguma rocha, coral morto ou mesmo os pilares de sustentação do deck. Os peixes gostam de se agrupar nessas formações.

Sargento-Mor (ou “aspira”…
)

Pepino-do-mar. Esse, na verdade, estava tranquilamente enroscado num pilar do deck.

Peixe-agulha.
Donzela (foto: United States Geological Survey)

Lulas – na verdade, vi um cardume inteiro de lulinhas. Elas disseram que nunca antes na história da Colômbia as lulas foram tão apreciadas. (foto: Clark Anderson / Aquaimages).
Com se vê, já dá para se divertir bastante no deck de mergulho do hotel.
À tarde, fui ao passeio que nos levaria a mergulhar com arraias – lá conhecidas como “mantarayas”, mas não é a espécie que nós conhecemos como manta – aquela negra, gigante, com dois apêndices em forma de chifre e belíssima. A arraia em questão é conhecida no Brasil como raia-manteiga, não menos bela. Custo do passeio: US$ 31,00. Equipamento e bebidas a bordo incluídos. Para quem está no Decameron Aquarium, não há necessidade de transfer – pode-se ir a pé, saindo à esquerda do hotel e caminhando até a marina Toninos (é o segundo portão, sem identificação. Pergunte para se certificar que chegou ao lugar certo.)
Todo mundo na lancha, partimos.

Olha ele de novo aí… É a maldição.
Depois de alguns minutos, a lancha pára e somos conduzidos a uma sessão de treinamento de snorkel. Para quem já sabe, como eu, uma oportunidade de mergulho a mais. E eis aqui uma amostra do famoso mar caribenho.

Ao lado, o blogueiro devidamente paramentado prepara-se para o sagrado ritual do mergulho.
À essa altura, o pessoal já tinha tomado umas e outras. Eu não. Viram como eu sei me controlar?
Mais alguns minutos de lancha e nova parada para mergulho, desta vez num banco de corais.

Cardume de pampo-galhudos ou aracaquiras.

Moréia (cuidado com elas…)

Mais um peixe-papagaio, já conhecido.

Baiacu – mais um para tomar cuidado, especialmente na forma de sushi. Poucos sushimen no mundo estão capacitados para extrair a glândula venenosa sem contaminar a carne. O mais famoso deles, um mestre japonês com 60 anos de prática (é necessário certificado emitido pelo governo japonês), prepara este sushi há décadas, mas nunca o comeu. Se você for preso e condenado à morte, peça este prato como última refeição. Neste caso, não haverá motivos para ter medo.

Polvo a jato.
Bom, enfim mais um passeio de lancha em direção ao mais aguardado: as arraias.
Paramos num banco de areia conhecido como El Acuario (Rose Cay), ao lado da ilha de Haines Cay, e trocamos os pés-de-pato por sapatilhas. O encontro se dá na maré baixa, ao final da tarde.

Após uma caminhada (ou nadada), o instrutor começa a lançar alimento na água para atrair as arraias (Dasyatis Americana).
E logo elas aparecem. Primeiro uma, duas, depois o clã inteiro.


Volto a repetir o que já disse em outros posts, em outros lugares: não há mídia possível capaz de reproduzir a sensação de estar lá, ao vivo e a cores. São dezenas de arraias, acostumadas com a presença humana, dando rasantes, passando por todos, pelas pernas, pelo meio do grupo, pode-se até alisá-las. Pensei que fossem ásperas, mas são aveludadas ao toque, cobertas com o muco que todo peixe possui na pele (talvez daí o nome brasileiro de raia-manteiga).

(foto: Didac Pelmon – Round the World Trip)

São seres lindos, hidrodinamicamente perfeitos, majestosos, movimentando-se com graça e elegância, como se voassem. Parecem até uma esquadrilha de caças espaciais*. Uma em especial parece ter gostado de mim e vinha toda hora procurar um cafuné – tá bom, sei que pode ser apenas um sentimento meu de antropomorfismo, mas é encantador. Emocionante. Pura poesia marinha.
Claro que você não vai molestá-las. Não seja o palhaço. Interaja com calma. Lembre-se que, embora não sejam “devoradoras de homens” – nem o querem – ao sentirem-se ameaçadas, dispõem de um poderoso ferrão venenoso serrilhado de 20 cm, localizado entre o corpo e a cauda. Diz a lenda que se enfiarmos um ferrão de arraia numa árvore, esta morrerá em minutos. E mesmo se não houvesse nenhum veneno, só a operação de retirada do ferrão e o tratamento da infecção bacteriana que você iria pegar já seria o suficiente para você meditar por umas três semanas sobre o colossal erro de ter agredido a arraia.
Aliás, uma delas cismou com, digamos, os glúteos de um colega de passeio e não parava de “montar” no dito cujo, causando risadas de todo o grupo. Vejam vocês o que é a vida: o sujeito trabalha o ano inteiro, ganha dinheiro, viaja para San Andrés e é sistematicamente violentado por uma arraia tarada. E o pior: ainda teve como testemunha este que vos escreve. A humilhação dele só não foi maior porque, como já disse, eu não tinha nenhuma câmera submarina… (dizem as más línguas que depois ele ficou inconsolável porque a arraia não ligou, não mandou e-mail, sumiu do MSN…)

Era possível reconhecer o líder – a maior arraia, evidentemente. Tinha uns 2,5 metros de envergadura (ATUALIZAÇÃO: possivelmente era uma fêmea, pois estas são maiores que os machos nessa espécie. Pouco se sabe sobre a estrutura social natural das raias-manteiga. O que acontece é que todos vêem grupos, digamos, “mal-acostumados” pelo ser humano, como este cardume de San Andrés, onde já aconteceram várias interações e interferências humanas. Mais do que provável, não é o comportamento que aconteceria num grupo isolado do nosso contato).
O instrutor até consegue segurar uma arraia para travarmos contato. Vou “surrupiar” do blog da Meilin uma foto desse acontecimento:
Afirmo sem sombra de dúvida: foi um dos momentos mais lindos da minha vida. Quisera ser eu uma arraia… Mas chegou a hora de partir e deixarmos os belíssimos “bichinhos” irem embora para casa depois do seu show espetacular.
Depois continuamos.
(*) Falando em caças espaciais, não resisti: várias espaçonaves dos filmes de ficção científica foram inspiradas em arraias, como:
1- Cylon Raider / Battlestar Galactica, 1978

Foto: http://www.crius.net/zone/showthread.php?t=22872
2- Alien Fighter / Independence Day, 1996

Foto: http://colonialfleet.wordpress.com/2008/08/
3- Alien Ship / Guerra dos Mundos, 1953

Foto: http://www.war-ofthe-worlds.co.uk/
4- Gungan Bongo / Star Wars: Episode I – The Phantom Menace - 1999

Foto: Wookiepedia
5- E, finalmente, o imortal SUBVOADOR do seriado ”Viagem ao Fundo do Mar” – 1964 (lembram desse?)

Foto: http://www.ussbrazil.com/1sub.gif




Junho 16, 2009 às 11:18 pm
Arthur, você está de parabéns, sabe o nome da peixarada toda! Eu tenho uma tabelinha com o nome deles (à prova d’agua!) e nunca me lembro de “identifica-los” nas fotos. O post tá ótimo, a foto foi roubada por uma causa nobre. Absss
Junho 16, 2009 às 11:19 pm
Baideuêi, aquela arraia de cabeça redondinha, toda pintadinha é a chita, tem aqui no Brasil também
Junho 17, 2009 às 9:50 pm
Meilin, foi dificílimo saber o nome de cada peixe, mesmo com a tábua de identificação do IBAMA de Fernando de Noronha. Para saber o nome daquele cardume do post 4 (pirajica – chopas em espanhol), foi um parto. O pampo-galhudo deste post então (chamado de “palometa” no arquivo da foto, mas “palometa” quer dizer “piranha” em espanhol, não sei porque este nome), levou HORAS de pesquisa no Google. Deveriam inventar um site de busca por imagens: o site reconheceria os contornos básicos da foto que vc tem e mostraria os resultados…
E correto, aquela é a raia-chita! Bjs
Junho 18, 2009 às 12:19 am
Arthur,
A viagem está empolgante. Concordo com a Meilin, post muito bem escrito e é impressionante como você descreve os peixes com maestria.
Abraços
Junho 18, 2009 às 7:23 pm
Essa moreia é perigosa? Achei muito bonito o “donzela”, é tipo a camisa do Boca Juniors!. Nem preciso falar nada da cor da água né? Abraço
Junho 18, 2009 às 9:31 pm
Orlani, obrigado. É que, entre outras qualidades minhas, tenho doutorado em Biologia Marinha na Universidade Federal do Uzbequistão. Um dia vou contar essa história.
Diogo, é perigosa, sim… Não se deve mexer com elas. Em Noronha é comum, na Baía dos Porcos, haver pequenas moréias nas poças d’água entre as pedras. Por isso deve-se ter cuidado ao andar por ali.
Abraços!
Junho 19, 2009 às 4:31 am
Que beleza de fundo marinho! Os peixes Sargento-Mor, peixe-Papagaio, o Polvo… maravilha da natureza marinha!!!
Um saludo terrestre
Junho 20, 2009 às 10:14 am
Gracias, Carmen! Já planejou sua viagem à Colômbia?
Junho 20, 2009 às 9:26 pm
Muito lindo, Arthur. E como disseram a Meilin, o Orlani e os outros, vc pesquisou muito bem as espécies marinhas, fornecendo bastane informação. E a lista de naves espaciais arraias deu um plus. Viagem ao Fundo do Mar e Galactica tirou do fundo do baú, hein? rssss
Abração!
Junho 20, 2009 às 9:27 pm
Ah, PS: na nova série Galactica de 2004, o Cylon Raider tem a forma de foice!
Junho 21, 2009 às 9:58 pm
JS, thanks. Viagem ao Fundo do Mar é uma Star Trek submarina (aliás, veio antes, pois ST é de 67). E lembra quando passava Galactica na Globo no domingo e Buck Rogers na quarta? Saudade não tem idade…
Junho 23, 2009 às 9:27 pm
[...] vaca caribenha, o passeio custa US$ 21,00 e também sai da mesma marina Toninos, já mencionada no post anterior, com uma parada no banco de areia igualmente citado no post anterior – “El [...]
Junho 23, 2009 às 10:25 pm
Ahaaaa… adoro fundos de mar. Adoro experiências subaquáticas… adoro as chitas!
Mas venhamos que ver uma raia encoxando um turista não tem preço! Raios??!!! hehehehe.
Beijos
Junho 24, 2009 às 8:48 pm
Carol, esse lance da raia com o turista exemplifica os tortuosos caminhos da paixão. Talvez eles tenham se juntado, largado tudo e ido morar em Arembepe.
Bjs!
Junho 28, 2009 às 8:17 pm
Muito bom este blog…melhor do que muitos sites e guias de viagem! Descobri pesquisando sobre Gramado e Canela e nele consta um post rico em detalhes sobre alguns pontos turísticos da cidade. Parabéns!
Junho 28, 2009 às 9:33 pm
Andrea, obrigado! Que bom que lhe foi útil!
Abração!
Julho 4, 2009 às 11:15 am
[...] San Andrés: mergulhando com arraias [...]
Setembro 24, 2009 às 11:37 pm
[...] seus movimentos que até lembravam caças espaciais, como escrevi à época, que não resisti e relacionei, no final do post, as naves dos filmes de sci-fi que foram inspiradas em arraias. Quando se vê uma delas “voando” pelo mar, não se precisa nem usar muito a [...]