Piratas do Caribe – Parte 7

No outro dia, fui ao passeio à ilha de Johnny Cay, ilha tipicamente caribenha, com coqueiros, areia branquinha e um mar cristalino em volta. Claro que não é uma ilha deserta; mas, leitores, vamos pensar sobre o assunto: a questão da “muvuca” é relativa. Quanto mais gente puder viajar e conhecer o mundo, melhor – “Viajar é fatal para preconceitos, intolerância e estreiteza de visão” - Mark Twain. Desde que o turismo seja sustentável, ou seja, não despeje num lugar mais pessoas do que o ambiente pode comportar (como Noronha, onde há um limite diário de turistas), e os visitantes saibam preservar a fauna e a flora, bastando para isso serem orientados e fiscalizados pelos guias e guardas locais, ótimo. Eu me sentiria egoísta em querer um lugar só, só, só para mim – coisa cada vez mais difícil de achar, nesse “mundo globalizado”. Para isso tenho minha casa. E por falar em casa, quem viaja e reclama que “tal lugar é cheio de gente, um horror”, parece o camarada que mora num prédio indevassável, aí começam a construir outro edifício em frente ao dele, e o sujeito reclama: “PQP, esse prédio vai tirar minha bela vista!!! Isso é um absurdo!”. Amigo, e o seu prédio, também não tirou a vista de alguém?

Conforme disse o Anthony Bourdain no Havaí, sobre um luau “fake” para turistas, com shows típicos, animadores chamando o público para dançar, etc. (e olha que ele é muito mais sarcástico do que eu): “São pessoas que trabalham duro, aposentados, que mal há se eles querem pagar mico uma noite? Eles têm o direito de se divertir”. Eu completo: se os turistas que regressarem de qualquer lugar do mundo tiverem aberto um pouco suas mentes, interagido com outras culturas e guardado ao menos uma pequenina, mas boa e saudosa lembrança do lugar visitado, que bom. Ficarei feliz por isso.

Mas voltando à vaca caribenha, o passeio custa US$ 21,00 e também sai da mesma marina Toninos, já mencionada no post anterior, com uma parada no banco de areia igualmente citado no post anterior – “El Acuario” ou Rose Cay.

Parênteses: ainda não mencionei, mas a língua falada em San Andrés, além do espanhol, é o inglês creolle (devido à primeira colonização inglesa, já citada), um dialeto que mistura tudo e no final todos se entendem. Uma zorra total, o que faz com que você comece uma frase em espanhol e termine em inglês ou vice-versa. Hoje, pensando bem, nem sei como me virei…

No caminho, o encontro das águas caribenho ;)

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Ao chegar em “El Acuario”, há um restaurantezinho onde você pode alugar snorkel e sapatilhas, por 6.000 pesos, fazer um passeio de barco com fundo de vidro para observar os peixes (4.000 pesos) ou simplesmente deitar na areia e não fazer nada até o almoço (já incluído). Também há armário para guardar suas coisas.

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Cabe algumas observações no passeio de barco (meia hora), se você for:

1- Não fique obcecado em fotografar o fundo do mar. Os visores são pequenos e é praticamente impossível focar direito. Curta com seus próprios olhos.

2- O barco é de casco simples, o que é a causa dos visores serem pequenos, na medida em que seu centro é cortado pela quilha. Deveria ser um catamarã, e o fundo de vidro seria amplo e inteiriço, na junção entre os dois cascos. Entre outras qualidades, tenho doutorado em Engenharia Naval pela Revell.

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Viram o que eu quis dizer?

Depois do passeio, fui fazer o que eu mais gosto: snorkel. Há várias mini-barreiras de corais concêntricas, e pode-se passar de uma a outra, sempre tomando cuidado com os ouriços.

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Outro baiacu.

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Peroá-rei, bem camuflado (Aluterus Scriptus).

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Peixe-cofre – não confundir com o baiacu; este tem este nome justamente pelo seu corpo ser meio “cúbico”, devido a uma carapaça interna que lhe serve de defesa.

E tudo ia bem, tudo ia tranquilo, quando de repente deparo-me com uma barracuda. Eu olhei para ela, ela olhou para mim e pintou um clima.

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Barracudas em geral não atacam o homem (porém, preste atenção no item “Barracudas and Humans” do link anterior), mas objetos brilhantes, como a coroa do meu relógio, podem despertar nelas instintos predatórios (Sharks – Andrea and Antonella Ferrari, Firefly Books, 2002). E, com uma boca imensa cheia de dentes afiados e voltados para trás, projetados para arrancar carne, achei melhor sair de fininho, antes que o “clima” se transformasse numa conjunção carnal indesejada. E mais uma vez, vamos pensar juntos, leitores: qualquer animal que empreste seu nome a uma arma de guerra ou coisas que evocam masculinidade e força é potencialmente perigoso. Assim, temos e tivemos mísseis com o nome de “Piranha”, submarinos com o nome de “Stingray”, “Seawolf”, carros-esporte (Plymouth Barracuda), caças com o nome de “F-15 Eagle” e… “Fairey Barracuda“.

Agora, imaginem o vexame que uma potência iria passar diante de sua maior rival se batizasse seu último e moderníssimo submarino nuclear de “Peixinho Dourado”. Não iria pegar bem, correto? Então respeite as barracudas. E lembre-se também que foi este peixe insensível que comeu (no bom sentido) a mamãe do Nemo. Atualização de 03/09/2009 – nome do mais recente submarino nuclear francês: Barracuda

Resolvi ira para o outro lado e dar uma nadada para a ilha de Haines Cay. É um bom exercício, mas você só vai ver algas. E ainda invadi a pousada local  o jardim do restaurante local – Bibi The Rasta / tel. 3138319039, bibisplace@hotmail – numa boa, dando uma volta no gramado e no parquinho para crianças.

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(Foto: www.sanandres.gov.co/turismo/home.php)   Essa é a visão de “El Acuario” / Rose Cay (as duas casinhas no banco de areia atrás das palmeiras), diretamente da ilha de Haines Cay. Claro que eu não nadei de lá até aqui com minha câmera…

Na volta, o almoço: peroá (ou peixe-porco), arroz de coco, salada e o onipresente, fundamental e ubíquo patacón. Gostoso.

E então embarcamos para Johnny Cay.

A ilha é realmente belíssima. Há um bar e um armário para você guardar suas tralhas (1.000 pesos) e fazer, mais uma vez, o que quiser: snorkel (não fiz, pois o mar estava muito revolto para se ver qualquer coisa com tranquilidade), embolar-se na areia, dormir numa barraca, tomar uns coco fresas ou coco locos, pensar em como você poderia aprimorar aquele seu relatório mensal de fechamento que você tem que entregar no trabalho até o dia 10 de cada mês, ou caminhar pela ilha – o que eu fiz.

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Praia tropical sem foto de um coqueiro inclinado para o mar não é praia tropical, já dizia o Ricardo Freire.

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Seres fantásticos? Desconhecidos? Serpentes marinhas fossilizadas? Não, apenas troncos secos.

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E eis uma amostra dos famosos “Sete Tons de Azul do Mar Caribenho”. Podem contar: 1, 2, 3, 4…

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Bom, no meu ritmo de caminhada, dei a volta inteira na ilha em meia hora. Depois guardei minhas coisas e fiquei ao sabor das ondas do mar “johnnycayano“, curtindo aquelas tépidas e transparentes águas, sendo jogado para lá e para cá, igual a um monte de algas.

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E deixei Johnny Cay com saudades, tal e qual um poeta de cabelos desgrenhados e alma melancólica, não sem antes me despedir de uma cachorrinha colombiana ;)    (Depois da gatinha colombiana…)

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Não é uma graça?

Depois continuamos.

PS.: As coisas da vida… Na volta, ao subir de impulso no barco, uma onda o levantou e caí dentro do barco, de costas, batendo com os quadris nos bancos de fibra de vidro (ai… Se fosse madeira, amorteceria mais). Pensei até que tivesse fraturado ou fissurado alguma costela, ou a bacia (toc toc toc). Ainda bem que eu sei cair, graças a dois anos de aikidô e kung-fu, onde cheguei à faixa branca amarrotada (verdade). E também agradeço aos meus pneuzinhos – gordura é proteção. Tem-se que prestar atenção em tudo. Acho que Johnny Cay não queria que eu fosse embora…

18 Respostas para “Piratas do Caribe – Parte 7”

  1. Lu Malheiros Disse:

    Oi!Como sempre,um belo post. Eu não mergulho, mas com um mar desses até dá vontade. Se eu for a Belize ano que vem, tenho uns amigos morando lá (não sei até quando), acho que criarei coragem para aprender…
    Abç,

  2. Arthur Disse:

    Oi Lu! Faça o snorkel, é menos complicado para quem tem receio. E vá a Belize sim, tem a 2ª maior barreira de corais do mundo (a primeira é a Grande Barreira da Austrália e a terceira é a de San Andrés.
    Abraços!

  3. J_Silva Disse:

    Além das belas imagens, ótimas considerações sobre o turismo e a questão da “periculosidade” de um animal. E, pelo jeito, Johhny Cay tem coisas melhores para se fazer do que pensar no relatório mensal do trabalho rsss
    ABs

  4. Mariana Disse:

    Além de tudo, gracinha a cachorrinha!
    Bjs!

  5. Arthur Disse:

    J_Silva e Mariana, valeu!
    Abraços

  6. Carmen Disse:

    Parabéns pelo texto. Amei!!!

    Parabéns pelas fotos são lindas. Gostei das fotos das praias de Johnny Cay. Issa fotos do coqueiro inclinado é uma beleza. Certamente é uma imagem da típica praia tropical.

    As barracudas dan medo, mais a cachorrinha colombiana é uma gracinha!!!
    Um saludo

  7. Arthur Disse:

    Que bom que gostou, Carmen! O coqueiro inclinado já é um clichê ;) A barracuda era só uma; só alerto para não sermos displicentes com ela… e a cachorrinha, acho que o nome dela era “Elisa”. Ela gosta dos visitantes, também não deve ter muito o que fazer ali… Quando crescer mais um pouquinho, tomara que arrumem um namorado para ela :D

  8. Meilin Disse:

    Arthur, além da Barracuda, tem um tubarãozinho que frequenta o aquário, mas ele já tá acostumado com a presença humana. Da outra vez encontrei com ele, meio de longe.
    Acho que a comida principal no Caribe é peixe, arroz e banana. Tem em toda parte.
    A-mei Engenharia Naval na universidade Ravell :lol:

  9. Arthur Disse:

    Meilin, provavelmente esse tubarão é um cação-lixa, relativamente inofensivo: http://www.discoverybrasil.com/tubaroes/detalhe/cacao_lixa/index.shtml

    E a Revell me graduou em engenharia naval, automobilística, aeronáutica e espacial. Devo tudo que sou à ela :D

  10. Carol Wieser Disse:

    Arthur,

    Lendo sobre a barracuda, lembrei que toda vez que mergulho procuro sempre tirar da orelha “meu brinco meigo-delicado, de aço inoxidável, com uma pedrinha bem brilhante e reluzente no meio”. Pura preucação né, sei lá o que passa na cabeça de uma Barra-KamiKaze-Cuda. Eu que não quero ficar sem orelha, ou deusolivre, sem umbigo (sendo que tenho um piercing shinning nele tambem). :roll:
    Mas venhamos que é um peixe imponente não? Merece respeito (e alguns nomes de armas de guerra também)…

    Abs,

  11. Arthur Disse:

    Carol, é isso aí. De fato, é um peixe muito bonito e imponente, merecedor de respeito – principalmente se estiver em cardume.
    Abraços!

  12. Arthur, Meilin, Carlota e Rafael em San Andrés, Cartagena, Bogotá e Parque Tayrona, na Colômbia | Viaje na Viagem Disse:

    [...] San Andrés: passeio e mergulho em Johnny Cay [...]

  13. Carla Disse:

    Arthur, se você se virou bem misturando inglês com espanhol já está pronto para ir à Califórnia! :lol:

    Eu adoro o sarcasmo do Bourdain, mas sabe que também dou razão a ele? Acho que viajar é isso mesmo – cada um vai onde, como, quando e com quem puder. Nem todo mundo tem o espírito relativamente aventureiro de quem viaja por conta própria (apesar de que, nesse mundo globalizado e conectado, a aventura é mesmo tão relativa…) O importante, como sempre, é procurar preservar os locais – turismo não precisa ser sinônimo de destruição.

  14. Arthur Disse:

    Carla, no final eu já nem sabia mais o que eu estava falando… ;)
    E claro, turismo não precisa nem pode ser sinônimo de destruição. Estão aí Bonito, Chapadas (Diamantina, Veadeiros, Guimarães) e Noronha, entre outros lugares, que não nos deixam mentir.
    Abração!!

  15. Silvia Maria Disse:

    Bem eu amei o seu diario de viagem , estou indo no domingo para San Andrés, Cartagena e Bogotá , onde meu sobrinho se casa no dia 25, estou confiante em suas dicas e copiei todas, só faltou voce falar uma coisa para as internautas viajantes , trajes do dia a dia , como seria mais adequado , já que os bikines tem que ser maiores. Grata

  16. Arthur Disse:

    Silvia, acho que me fiz interpretar mal; lá não é nada radical assim;) Trajes do dia-a-dia normais, igual aos que usamos aqui. E quanto aos biquínis, um modelo comum tipo “asa-delta” já está mais do que decente, não se preocupe.
    Boa viagem e obrigado pelos elogios! Aproveite!

  17. Silvia Maria Disse:

    Ai Arthur, eu é que acho que sou muito apavorada, minha cunhada estava camihando de legging e camisetão,no centro de Santiago Chile e umas senhoras disseram que ela estava com pantalones imorales!?!?!
    E depois dessa , procuro me informar bem , capa povo com seu costume , e nós temos que respeitar , afinal o país é deles. Grata por sua resposta.

  18. Arthur Disse:

    Oi Silvia, talvez pq Santiago seja uma cidade mais, digamos “formal”. Já Cartagena e San Andrés são lugares praianos, mais descontraídos.
    Abraços!

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