Vou começar a postar uma mega-viagem que fiz nas minhas férias, em maio de 2006, quando fui na Chapada Diamantina (BA), Morro de São Paulo (BA), Aracaju (SE), Canindé de São Francisco (SE) e Natal (RN). Foram 24 dias sem parar, onde o sertão virou mar e o mar virou sertão.
A idéia de tal périplo nasceu da seguinte maneira: já tinha planejado ir à Chapada em 2006, no início das minhas férias (primeira semana de maio) e minha noiva marcou uma viagem nossa para Natal, para o meio do mês. Como não queria ir e voltar duas vezes para o Nordeste, resolvi chutar o balde, me endividar e comecei a procurar mais alguns destinos para inserir entre os dois já definidos. Daí vieram Morro de São Paulo e Sergipe. Tudo devidamente customizado (aarrrghhh).
Adquirido o pacote – sempre deixo minha agente de viagens maluquinha, pois compro tudo para daqui a uma semana – embarquei num domingo (30/04) para Salvador. Ao chegar, fui informado que o ônibus da agência iria passar no dia seguinte para o traslado a Lençóis (Chapada), às 7:15 da manhã. Sofri então um pequeno questionamento existencial: em pleno começo das minhas férias, eu teria que acordar na segunda-feira muito mais cedo do que eu costumo acordar normalmente para ir trabalhar. Que idéia…
Chapada Diamantina – 01/05/2006 a 06/05/2006
Na hora marcada, chegou o guia e, após passarmos nos outros hotéis (o meu foi o primeiro) para pegar os outros turistas, iniciou-se oficialmente o longo trajeto de 9 horas até Lençóis, incluindo paradas para almoço e reabastecimento.
O grupo revelou-se bastante divertido, amistoso e bem-entrosado durante toda a viagem pela Chapada. Deixo aqui um grande abraço a todos que estiveram comigo naquela semana. Lembro de cada um de vocês.
Quanto mais andávamos, mais se viam nuvens no horizonte. Chegamos em Lençóis confirmando meus piores temores, debaixo de chuva. Maio é o mês das minhas férias, mas também é o mês onde chove pra cacete em todo o Brasil…
Uma particularidade da Chapada é que o city-tour, tanto em Lençóis quanto em Mucugê, é feito à noite. De dia há coisas mais importantes para se fazer
No Hotel de Lençóis – www.hoteldelencois.com.br – onde eu e outros nos hospedamos, existe um mini-mini-museu no hall, contando a história do garimpo na região, com as ferramentas utilizadas na época. Ou seja, o city-tour já começa por ali.
Lençóis é uma cidade muito bonitinha e pitoresca, com um centro histórico bem-conservado. Essa primeira foto abaixo é a fachada do hotel.
Ao final do passeio, marcou-se o almoço do dia seguinte no restaurante do Seu Neco (Neco´s Bar), figura tradicional da cidade. O restaurante serve uma excelente comida típica da Chapada e é imperdível, tendo sido citado também no ótimo livro “Roteiros do Sabor Brasileiro”, de Chico Júnior, chef e crítico de gastronomia. Só funciona por encomenda. Sabe ir a Roma e não ver o papa? É mais ou menos assim.
Após todos jantarmos uma boa pizza no “Pizza na Pedra”, recolhi-me aos meus aposentos. Um pequeno – aliás, bem pequeno – problema dos quartos era a infestação de mosquitinhos, que o povo local conhece como “asa caída”. Um problema um pouco maior foi a aranha cinza, do tamanho de um polegar, no forro do teto. Como não tinha certeza se ela era venenosa, deixei-a em paz. Consciência ecológica e respeito aos seres vivos é isso aí…
Com um grande medo da chuva continuar e já me vendo trancado no quarto vendo TV a semana toda, fui dormir imerso em preocupações. Para felicidade geral da nação, o dia seguinte amanheceu apenas nublado e depois foi abrindo. Isto porque lancei mão de uma velha superstição: botei guarda-chuva e capa dentro da mochila, o que fez com que não chovesse. Nunca falha.
A primeira trilha a encarar acontece nos arredores de Lençóis, margeando o Rio Pratinha, passando pela Cachoeirinha, pela cachoeira da Primavera e por um mirante no alto de uma colina, de onde se tem uma visão panorâmica da região. Esta trilha leva a manhã inteira e termina no Salão das Areias, formação de arenito.
Botânica para principiantes: orquídeas.
Na Chapada, as águas têm uma tonalidade marrom-avermelhada. Antigamente, supunha-se que isto se devia ao alto teor de ferro na água, mas agora chegou-se à conclusão que a cor é causada pela matéria orgânica (folhas, galhos, frutos) dissolvida na água. É comum que esta concentração de matéria orgância forme uma espuma branca em certos locais. As crianças adoram se divertir nos rios fazendo guerras de espuma.
A Cachoeirinha.
Uma formação rochosa e logo abaixo, a cachoeira da Primavera.
Vista do mirante da colina e depois, o Salão das Areias.
Este lado para cima.
Após o Salão, retorna-se a Lençóis para o almoço já reservado no Neco´s Bar. Se uma refeição comum já seria ótima depois de tanto esforço, que dirá a comida servida pelo Neco. Tem:
- Batata da serra: um tubérculo que só cresce na região. Acumula água no seu interior fibroso. Assim, conforme dito no livro do Chico Júnior, parece com “uma melancia branca e salgada”. É usada em saladas.
- Godó de banana: banana da terra picada e refogada com carne-de-sol.
- Cortado de palma: ensopado feito com palma picada e refogada. A palma é um tipo de cacto, devidamente limpa e sem espinhos, claro.
Além disso, muito arroz, feijão, farofa de dendê com couve, surubim frito, frango, e um carneiro que derretia na boca. Não se intimide se algum dos pratos típicos lhe parecer estranho. Aproveite e coma, você não vai ter outra oportunidade na vida, pois esses pratos só são feitos na Chapada.
Findo o lauto almoço, uma vista pela cidade, agora de dia.
Mariposa também descansa. Essa espécie é muito comum lá.
Após o breve descanso do almoço, ainda de barriga cheia, fizemos a trilha de uma hora (pelo menos era plana), para uma piscina natural no Rio Ribeirão, onde existe um ”toboágua” de pedra. Não é seguro escorregar ali quando o rio está volumoso, e esse era o caso. Esse foi o último passeio do dia.
Jantei no hotel – aliás, devo dizer que o restaurante do hotel era dez. Pratos muito bem-feitos, estilo “despojado-aventureiro-chic”, seja lá o que isso queira dizer, mas você entendeu.
No outro dia, tentamos ir até ao Poço do Diabo (abaixo), mas não deu porque as águas estavam muito caudalosas – havia chovido à noite.
Abaixo, a flora e a fauna da Chapada continuam dando as caras:
- Um arbusto de “sempre-viva” (guarde este nome)
- A flor chamada “raio de sol”, pelo motivo óbvio.
- Três micos de Francisco: não vi, não ouvi, não falei. O engraçado é que eles estão tão acostumados com os turistas que não aceitam mais bananas, só doces. A obesidade logo lhes será um problema.
- Lagarto lagarteando ao sol.
Fomos então para um dos símbolos da Chapada: o Morro do Pai Inácio, fazer uma suave escalada até o topo, numa trilha nem um pouco íngreme…
À medida que se sobe, tem-se diferentes ângulos da região.
Enfim, o topo.
Vista do Morrão e depois, do Morro do Camelo, abaixo (ao fundo).
No topo, os guias – Hugo e Robson – contam a lenda do Pai Inácio. Pai Inácio foi (ou teria sido, segundo a mania de “tirar da reta” do nosso jornalismo atual) um escravo que se apaixonou pela filha de um poderoso coronel da região, lá em séculos idos. O pai da moça não gostou nada dessa saliência e mandou seus capangas darem um sumiço no moço. Ele, que não era bobo, se mandou para o alto desse morro e ficou lá escondido. Quando o pessoal soube onde ele se encontrava, o coronel mandou a galera ir lá em cima. O que aconteceu? Bem, você vai tomar um susto quando os guias “interpretarem” o desfecho da história…
Finda a expedição ao Morro do Pai Inácio sem mais sobressaltos, fomos para a Gruta da Pratinha, onde é possível fazer uma tirolesa, mergulhar de snorkel na gruta ou simplesmente banhar-se na água. Eu e mais 3 corajosos optamos pelo mergulho de snorkel, com uma lanterna subaquática e acompanhados do guia. NUNCA tente isso sem um guia experiente. Devo dizer também que fiz esta flutuação após me empanturrar em um outro farto almoço de comida típica num restaurante ao lado da Gruta. Isso é que é bom senso…
Acima, a Gruta e suas águas claríssimas. Para fazer a flutuação, entra-se pela fenda no meio da foto e se segue pelos diversos salões, daí a necessidade de guia e lanterna à prova de água. Consegui ver uns dois bagres cegos e albinos, como é comum entre os animais que vivem em cavernas. O percurso todo é muito interessante. As cavernas também tem, como não poderia deixar de ser, ninhos de morcegos que dão alguns rasantes nos banhistas, lá dentro. Se você tem claustrofobia, procure relaxar, pois vale muito à pena. Se você tem muita claustrofobia, aí realmente é melhor não tentar.
Após o mergulho, seguimos para o outro lado da área, onde fica a Gruta Azul, que é conectada à Gruta da Pratinha. Porém, nesta gruta não é permitido entrar.
Acima, a casa do Homem-Aranha…
…e a Gruta Azul.
Próxima e última etapa do dia: Gruta da Lapa Doce. Após uma pequena caminhada, chega-se à gruta, onde se desce um canyon por um caminho de pedras – sempre tem descida e subida, não tem jeito… Um dia há de ter escada rolante
Lá chegando, começa o passeio pelos caminhos abertos à visitação. 22 km já foram mapeados pelos exploradores, mas apenas 850 metros podem ser percorridos pelos turistas. Muitas formações típicas, como estalactites e estalagmites, podem ser vistas aqui, com o devido auxílio de um guia especializado.
Os vários minerais presentes, além do calcário, produzem efeitos belíssimos.
Abaixo, o “Lustre” e o “Leão”.
E assim chegou ao fim esse dia. Não sem antes subir tudo de novo após a saída da gruta, é claro…
No dia seguinte, já embarcamos com destino a Mucugê, outra cidade da Chapada, bem menor que Lençóis e situada numa serra. No caminho, uma passada básica na Toca do Morcego, loja de artesanato com as pedras da região – principalmente quartzo-rosa – e a ida ao Poço Encantado, lago subterrâneo onde o calcário dissolvido na água em conjunção com os raios do sol que entram por uma fresta da gruta, produzem um visual extremamente bonito e relaxante (ainda bem, depois da íngreme descida de praxe para chegar lá).
Abaixo, visão de uma corredeira, da Toca do Morcego, e mais abaixo, o Poço Encantado em todo o seu esplendor. Quem já esteve na Gruta do Lago Azul, em Bonito (MS), vai ter boas recordações.
O Poço está interditado ao mergulho. Apenas profissionais, com a devida autorização, podem explorar o local. Após a íngreme subida de praxe, voltamos ao ônibus para continuar o caminho até Mucugê.
Em Mucugê, todos ficamos hospedados na Pousada Mucugê – www.pousadamucuge.com.br, antigo e pitoresco casarão restaurado.
Logo após o almoço, uma visita ao Projeto Sempre-Viva, que protege a fauna e flora locais e estuda os aspectos relacionados à sempre-viva, planta ornamental retratrada anteriormente. Seu nome se deve ao fato de, mesmo depois de passados vários anos após sua colheita, ainda se abrir quando mergulhada num vaso de água. No entorno do Projeto, existe um caminho que leva a Cachoeira da Piabinha (abaixo).
À noite, o já famoso city-tour, passando pelo Cemitério Bizantino e outros pontos da cidade. O Cemitério é construído num paredão de rocha, sendo um dos poucos no mundo nesse estilo. Não existe hora melhor para visitar um cemitério do que à noite, claro. As fotos não ficaram boas. Deve ter sido influência das almas penadas… Lembra das famosas “fotos de fantasmas” que passava no Fantástico antigamente? Hélio Costa traumatizou toda uma geração.
Abaixo, o carro dos bêbados, transporte municipal gratuito para aqueles que passaram da conta.
No outro dia, teríamos a mais sinistra, escalavrante e esbodegante trilha jamais enfrentada por mim. Nunca na história desse país eu andei tanto.
O último dia reservava o gran finale: o passeio até a Cachoeira do Buracão, em Ibicoara. O caminho até lá compreende duas horas de micro-ônibus na estrada, mais uma hora numa estrada de terra, e mais uma imensa caminhada de duas horas pelas trilhas. Evidentemente, depois tem-se que voltar por todo esse caminho.
Depois de todo o percurso motorizado acima, quando chegamos ao início da trilha, já eram mais ou menos 11:35 da manhã. Isto significava andar debaixo de um sol saariano, num caminho formado basicamente de platôs de rocha (que refletem o calor). Ou seja, éramos igualmente tostados por baixo e por cima, como convém a um bom grill. Neste passeio se leva lanche, preparado pela agência receptiva. Também é fundamental levar água. Pegue do frigobar do hotel e não se preocupe com o peso – você vai consumi-las rapidinho.
Atravessando um pequeno riacho pelas pedras, inicia-se a trilha propriamente dita, margeando o Rio Espalhado.
Após um bom trecho plano e já bem-passados, entramos no banho-maria: passa-se ao trecho descendente, pela mata adentro, com toda sua umidade. Lembre-se que a cachoeira se chama “do Buracão”.
Num certo ponto, passa-se por uma cachoeira menor – infelizmente, não descobri seu nome. Este trecho é muito escorregadio, pois a umidade proveniente da cachoeira cria musgos nas pedras. Todo cuidado é pouco.
Mais um trecho e chega-se ao entorno do Buracão. A cachoeira está localizada atrás do canyon formado pelo seu poço. Tem-se duas opções aqui: para quem tem medo de água, atravessa-se uma pingüela até a parede oposta do canyon, vai-se pelas pedras agarrando-se com as mãos (“não se preocupem com as unhas, mulheres” – disse o guia) até chegar no canto que dá de frente para a cachoeira. A outra opção, para quem tem medo de altura, é ir nadando contra a correnteza, munido de colete salva-vidas, até o canto citado acima. Há outra opção, mais radical: rapel desde o topo, mas isso é para os profissionais. Não façam em casa.
Esse canto de pedras funciona como “arquibancada” para se apreciar a cachoeira. Claro que é o máximo que se pode chegar perto dela, pois trata-se de uma cachoeira com 90 metros de altura e a força da queda não permite maiores aproximações.
Eu e outros escolhemos ir pela água. O guia foi com o restante por cima, levando nossas máquinas numa mochila impermeável (confesso que pensei no pior e me despedi da minha câmera. Felizmente o cara era bom).
Este é o entorno de onde se parte, e após, a bela e gloriosa Cachoeira do Buracão e seu canyon.
Este canyon mostrado acima foi por onde viemos nadando, lááá do final, à direita. A volta foi supertranqüila, pois foi a favor da correnteza. Só deitar na água, com o colete, e deixar rolar.
Depois, tivemos, evidentemente, que voltar por toda a trilha novamente, agora subindo…
Aqui, a Cachoeira do Buracão vista de cima.
Quando chegamos, enfim, no micro-ônibus, no início da trilha, já eram umas 17:30 da tarde. Aí aconteceu um fato inusitado – o ônibus atolou na estrada de terra. Para não pernoitarmos ali, o que não seria muito agradável, nós, os valorosos homens da expedição, fomos empurrar o dito cujo até que ele se soltasse (tá bom, confesso que não fui lá empurrar, preferi dar apoio moral e intelectual). Corre um boato que alguém tirou uma foto desse momento; só não se sabe quem, até hoje.
Enfim, chegamos no hotel 21:30 da noite. No dia seguinte (06/05/2006), o grande retorno a Salvador e as despedidas.
A Chapada é realmente um local lindo – faz jus a tudo o que falam dela e entra tranqüilamente em qualquer lista de “locais para visitar antes de morrer”. Existem ainda inúmeros locais na região que não fomos, mas que merecem citação, como o Pantanal de Marimbus, a Cachoeira da Fumaça, o Poço Sonrisal, etc. Há trilhas que levam dias, onde se acampa pelo caminho. O nosso passeio, mais “de turista”, é até considerado light, mas para sedentários como eu e muitos outros, há que se ter fôlego. Mas vale totalmente a pena. Fiquei orgulhoso de mim mesmo por ter conseguido.
Salvador – 07/05/2006
Ninguém é de ferro…
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ
Morro de São Paulo – 08/05/2006 a 11/05/2006
Após a Chapada, nada melhor do que uma praia para relaxar. Porém, chovia a cântaros em Salvador nesse dia, o que fez com que o catamarã para Morro de São Paulo não pudesse ir diretamente para lá, por razões de segurança. Em vez disso, ele foi para Itaparica, onde a empresa responsável ofereceu um ônibus para transporte até Valença, onde pegaríamos a barca (gaiola) até Morro.
E o meu medo de ter minha viagem estragada pela chuva acabou voltando. Porém, calculei que se a chuva estava em Salvador, que fica ao norte de Morro de São Paulo – e as frentes frias sobem – então deveria estar sol em Morro, a não ser que se tratasse de uma frente fria monumental.
Graças aos deuses, acertei. Abaixo, fotos da travessia Valença – Morro de SP e a aproximação da vila, com o tradicional farol.
Após a tradicional recepção pelos meninos carregadores de mala – preço de tabela, R$ 7,00, mas vale a pena – fui para o hotel, a Pousada Villa das Pedras, muito agradável (aprendi a botar link direto no texto, viram?).
Este foi outro estabelecimento onde gostei muito do restaurante. Almocei um camarão marroquino, refogado com castanha de caju, palmito e molho shoyu, que estava uma delícia. Depois curti a praia em frente à pousada – Segunda Praia. Para quem não sabe, os nomes das praias em Morro são os mais diretos possíveis – Primeira Praia, Segunda Praia, etc.
E aí fui para a caminhada histórica com o guia. Aqui o Farol de Morro de São Paulo, e logo abaixo, vista das ruínas da fortaleza.
Uma pequena trilha até outra parte da fortaleza, e um belo pôr-do-sol.
Continua no próximo post.
Escrito por Arthur 
