Battlestar Galactica – Cylon Raider & Cia.

Setembro 24, 2009

Alguns posts provocam efeitos colaterais interessantes. Quando a Camila postou em seu blog sua viagem ao Peru – ocorrida uma semana depois das minhas andanças naquelas paragens (!) - incluindo o Lago Titicaca e as comunidades indígenas dos Uros, que lá vivem em ilhas artificiais flutuantes, começaram a aparecer leitores que procuravam na internet “como as crianças Uros iam à escola“, e eram direcionadas ao Viaggiando nel Mondo. Até que a Camila descobriu que toda essa audiência era o resultado de trabalhos escolares de instituições que usam determinada apostila de Geografia (Rede Pitágoras, de BH), onde um dos temas de trabalhos em grupo era exatamente sobre a educação dos Uros.

Pois bem, quando postei sobre minhas aventuras em San Andrés, na Colômbia, em especial o mergulho em Rose Cay (El Acuario) com um cardume de arraias, fiquei tão encantado com aqueles belíssimos seres marinhos, tão elegantes em seus movimentos que até lembravam caças espaciais, como escrevi à época, que não resisti e relacionei, no final do post, as naves dos filmes de sci-fi que foram inspiradas em arraias. Quando se vê uma delas “voando” pelo mar, não se precisa nem usar muito a imaginação…

Passou o tempo e não deu outra: um dos termos de busca mais procurados pelos quais os internautas estão chegando no meu blog é exatamente “cylon raider” (abaixo) - o caça Cylon_raider1de três tripulantes que era a espinha dorsal das forças militares cilônias – seres outrora reptilianos e agora cibernéticos, originários do planeta Cylon – os inimigos da humanidade na série “Battlestar Galactica“, tanto a original transmitida no período 1978/1980, quanto a releitura de 2003/2009.

Como este blog foi originariamente definido como sendo “um blog de viagens, comida, cinema etc” (está no cabeçalho, pay attention please…), e esta parte cinéfila caiu no limbo há muito tempo, resolvi escrever estas mal-traçadas para não deixar frustrados os que aqui aterrissam depois de longas buscas no Google e não encontram o que procuravam. Imaginem, o fanático por sci-fi procurando seus objetos de desejo na Web até altas horas da noite, aí chega no meu blog e descobre que eu estava falando de mergulhos, arraias, espongiários e equinodermos etc. Deve ser uma dor incomparável. Sei como é isso, até porque também sou outro “sci-fanático“. Empatia é isso aí. Então vamos viajar em velocidades superiores às da luz.

1- Battlestar Galactica – 1978 / 1980

No piloto da série, produzido por Glen A. Larson para a rede de televisão ABC e que foi exibido nos cinemas brasileiros (não lembro se vi no extinto Cinema Niterói ou no igualmente extinto Cinema Icaraí, mas vi), vemos na introdução que a raça humana teve sua origem no planeta Kobol e daí se espalhou pela Galáxia, colonizando treze planetas, sendo que doze fazem parte desta, digamos, “federação”, e o décimo terceiro planeta seria a Terra, esquecida há muito tempo na lembrança dos homens. Alguns dizem que este número seria uma alusão às Treze Tribos de Israel ou às Treze Colônias Americanas.

Parênteses: considerem que na época, estava no auge o livrinho “Eram os Deuses Astronautas“, do picareta-mor Erich Von Daniken, que sustentava que ETs haviam entrado em contato com os seres humanos primitivos e acelerado a evolução tecnológica do homem. As provas dessa influência estariam nas Pirâmides, em Machu Picchu, nas lendas da Atlântida e do Triângulo das Bermudas etc. Hoje, Daniken tem um parque temático com todas suas “teorias” em 3D Imax digital e muitas bugingangas para vender (eu fui fã dele naqueles tempos, eu confesso).

Além do megassucesso de Star Wars no ano anterior, a série aproveitou o zeitgeist (espírito da época - hoje estou chique) dos anos 70 e incorporou esses conceitos, tanto na narração introdutória – onde se dizia pomposamente que alguns acreditavam que antepassados dos homens estiveram na Terra, os quais seriam os parentes dos egípcios, astecas, toltecas e maias e blá blá blá – como na utilização de termos e conceitos relativos à Antiguidade Clássica: robôs chamados de “centuriões”, nomes familiares como “Apolo”, ” Atlantis”, “Pegasus” e até o próprio capacete dos pilotos humanos, que lembrava muito o toucado listrado azul e dourado dos faraós egípicios (nemes).

Voltando à história, após uma devastadora guerra de mil anos dos humanos contra os cilônios, estes propõem um acordo de paz, a ser realizado em Caprica (um dos doze planetas mencionados. Cada planeta tinha sua nave de batalha, e a Galactica representava Caprica). Mas tudo não passa de uma crocodilagem (descendentes de répteis, lembram?…) e os cilônios pegam as forças humanas desprevenidas e fazem picadinho da armada humana e de suas colônias.

Depois desse sacode sideral, a única nave de batalha que restou foi a Galactica, que conseguiu fugir a tempo (alguns episódios depois, a Galactica encontra a Pegasus, a qual também sobreviveu ao ataque, mas preferiu trilhar seu próprio caminho) e convocou tudo o que ainda pudesse navegar pelo espaço para acompanhá-la com os sobreviventes da humanidade até a décima terceira colônia perdida e há muito esquecida – a Terra, como vimos.

Liderando essa armada brancaleone, a Galactica passa por várias peripécias para tentar achar o planeta Terra, sendo perseguida impiedosamente pelos cilônios e sofrendo vários ataques pelo caminho, igual a uma Geni espacial.

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A BS Galactica (acima) possuía 1.200 metros de comprimento e um esquadrão de 75 Colonial_viper_original-seriescaças Viper (abaixo) - os únicos que sobraram do famigerado ataque cilônio. Os personagens principais eram o comandante Adama (Lorne Greene), Apolo, filho de Adama (Richard Hatch),  Starbuck, o melhor piloto da frota (Dirk Benedict, que também trabalhou no seriado “Esquadrão Classe A“), e Baltar (John Colicos), o traíra humano que entregou sua raça aos cilônios, sedento de poder e de algum cargo comissionado no Senado de Cylon.

Enquanto Apolo fazia o estilo do piloto “bom-moço”, Starbuck era sua contraparte: fumava charutos (havia algum planeta chamado Cuba?), bebia, jogava e pegava todas, tal e qual um José Mayer das estrelas.

Ainda sobre a Galactica: no início de um episódio, Apolo está numa torre de observação astronômica e comenta com Starbuck que originariamente havia dez torres daquele tipo, mas aquela era a última que restara desde a construção da espaçonave, 500 anos atrás. Ou seja, as naves da classe eram construídas para durar, ao contrário de tudo que VOCÊ tem em casa: seu carro, seu computador, seu MP3, seu celular, seu DVD etc…

Sobre as forças cilônias, eram consideravelmente mais poderosas que as humanas – ainda mais depois do genocídio ocorrido no início da série. A esquadra cilônia era composta das sombrias Cylon Basestars (na tradução da Basestarsérie, ficou nave-base cilônia), tecnologicamente superiores às naves de batalha humanas, não sendo páreo para estas. Com 1.800 metros de diâmetro, carregando 300 raiders, batalhões inteiros de soldados-robôs – os centuriões – mísseis nucleares, canhões laser e megapulsares (descritos como suficientes para detonar uma nave do porte da Galactica com poucos disparos), não seria sensato enfrentá-las diretamente. Para piorar, ainda vinham em formações de três…

E então chegamos ao nosso amigo (?), o cylon raider (a tradução correta seria nave de ataque cilônia, mas ficou como caça). Tripulado por três Raidercrewcenturiões – o comandante, o piloto e o artilheiro (ao lado), vinha em massa contra os pobres humanos e qualquer outro que se metesse no caminho do Império Cylon.

Armado com lasers e mísseis e medindo 12 metros X 15 metros, também tinha o hábito de surgir em ondas de três, e o hábito pior ainda de executar táticas kamikazes, jogando-se carregado de explosivos contra as 2194906013_e7a021b1a0pistas de pouso da Galactica, causando danos consideráveis. Aqui, um aparte: todas essas táticas evocam as utilizadas pelos japoneses contra os americanos na 2ª Guerra Mundial, onde os caças Zero também vinham em ondas de três e se jogavam nos porta-aviões americanos, para causar a maior extensão de danos possível (isso se não fossem derrubados antes).

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Ao lado, ataque real de um Zero suicida ao USS Missouri na 2ª G.M.

Voltando ao espaço sideral, os pilotos humanos compensavam a imensa superioridade bélico-numérica  de Cylon com estratégias criativas e iterativas, coisa que os cilônios não eram capazes de fazer com a sua programação básica.

A série durou uma temporada de 21 episódios em 1978, e teve uma continuação – Galactica 1980, de apenas 10 episódios, onde finalmente a espaçonave encontra a Terra e os atores que substituíram Apolo e Starbuck inflitram-se entre os terráqueos, aprendendo sobre o nosso modo de vida. Esta continuação foi um fracasso e Galactica foi para o arquivo da emissora.

Curiosidade: em 1978, a 20th Century Fox acionou na Justiça a Universal Studios por plágio, alegando que 34 conceitos de Galactica foram copiados de Star Wars. A Universal imediatamente retaliou, afirmando que Star Wars havia copiado idéias do filme Silent Running (1972), da própria Universal, e dos seriados de Buck Rogers da década de 30. As ações foram arquivadas por “falta de mérito” e tudo terminou em pizza. É, George Lucas, você ganhou dinheiro em 99,9999% das ocasiões, mas não dessa vez… (comentário: de fato, o centurião cilônio é a cara do Darth Vader…)

2- Battlestar Galactica – 2003 / 2009

Vinte e três anos depois, eis que surge um revival da série, com algumas mudanças muito interessantes. Para começar, o episódio original foi uma minissérie de três capítulos exibida em dezembro de 2003 nos EUA, e de cara mostrava uma abordagem do tema e atuações bem mais sombrias, com várias intrigas correndo por baixo do pano de chão do faxineiro da Galactica.

Nesta série, os cilônios foram criados pelo homem para realizar diversas atribuições, entre elas trabalhar em determinadas atividades e… guerrear. Porém, algum bug rolou na programação dos robôs, eles surtaram e se voltaram contra seus criadores. Aconteceu então a Guerra Cilônia, que durou uns treze anos, e um armistício foi declarado. Mas quarenta anos depois os cilônios voltam com tudo e mais Nukes_in_Miniseriesuma vez a humanidade é deixada à beira da extinção (ao lado). Desta vez, além dos centuriões de sempre, os estrategistas de Cylon prepararam uma surpresa: cilônios humanos, criados com o propósito de inflitração e desativação dos sistemas de defesa das colônias. Este fito é conseguido através da mais velha de todas as armas…: uma cilônia humana, a Número Seis (Tricia Helfer - abaixo), seduz o Dr. Gaius Baltar (James Callis) e consegue acesso aos códigos NUP_111711_1382secretos para disseminar um vírus que dá um tilt em todas as naves de guerra, exceto a Galactica, que estava fora da área de cobertura justamente porque iria ser descomissionada e transformada num museu em homenagem aos mortos na citada Guerra Cilônia. Às vezes é bom não estar na rede…

Quem pode culpar o pobre Baltar por atender os pedidos tão doces e gentis desta lady?

Após a destruição de tudo que cheirasse a gente, mais uma vez a Galactica consegue fugir, liderando o bando de sobreviventes do genocídio, à procura da Terra, a esquecida colônia que não ousa dizer o seu nome.

Como comandante, William Adama (Edward James Olmos) e como principais pilotos, seu filho Lee Adama (Jamie Bamber) – codinome “Apolo…”  e Kara Thrace (Katee Sackhoff) – codinome “Starbuck (!)” – isso mesmo, o mulherengo Starbuck da série original agora é uma mulher (bem gata, por sinal). A luta continua.

A “nova” Galactica possui agora 1.400 metros, 514 canhões secundários e 24 primários (chamados de “Armas de Energia Cinética” – ou seja: balas…) e 12 lança-mísseis, além do seu esquadrão de Vipers.

Galactica_Overview

 De todos, o Viper (abaixo) foi o que mais se manteve, digamos, “fiel” ao desenho original.Bsg-viper-1 Devido à morte do presidente das doze colônias durante o ataque cilônio, sua Secretária de Educação, Laura Roslin (Mary McDonnell) assume o posto, em uma rápida cerimônia, como exigia a ocasião e o adiantado da hora. O contexto desta cerimônia evoca a posse de Lyndon Johnson após o inesperado assassinato de JFK. Curiosidade: a mesma atriz Mary McDonnell interpretou também a primeira-dama dos EUA em Independence Day (1996), onde faleceu devido à queda do helicóptero presidencial após o ataque das gigantescas naves alienígenas…

Embora a nova série tenha ganho inúmeros prêmios (melhor ator, melhor série, melhor coadjuvante, melhores efeitos etc.), no início, alguns críticos contestaram o fato de os humanos apresentados na série adotarem o american way of life, mesmo pertencendo a outra civilização humana que não era a nossa. Como exemplo, o uso de ternos e gravatas, a mídia onipresente, jipes hummers (!) circulando nas bases coloniais antes do ataque cilônio, e a própria BSG-Colonial-Onenave da Presidente Roslin, a “Colonial One”, cujo nome e pintura lembram imediatamente o Air Force One, da presidência americana. Mas isso é explicado no final da série, que não vou contar…

E do lado cilônio? Bom, já mencionei, mas ainda não mostrei uma foto do centurião básico, desta vez feito em computação gráfica:

Centurion_on_Pegasus

O centurião é o “burro de carga” das forças terrestres de Cylon. Com uma blindagem completa, grande agilidade nos membros e na locomoção e equipado com diversas arams conforme a ocasião, é um formidável oponenete a ser considerado, especialmente se você está ferido e sozinho num prédio abandonado e percebe que eles estão se aproximando, no modo “search and destroy“, ou seja, “pega, mata e come”.

O fato dos cilônios terem sido renderizados em CGI na nova série causou um problema social para os “antigos” cilônios…

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Mais uma vez, a espinha dorsal da esquadra cilônia é a Cylon Basestar, desta vez fazendo jus ao seu nome, pois consiste agora de duas estruturas em forma de Y sobrepostas. Seu comprimento é de 1.030 metros e é armada com mísseis comuns e nucleares, além do tradicional esquadrão de cylon raiders (abaixo).

Basestar

E mais uma vez chegamos ao “novo” Cylon Raider, agora um ser cibernético, ao contrário do “anterior”, que era um equipamento tripulado por robôs – o que, convenhamos, não fazia muito sentido, pois seria muito mais prático que a própria nave fosse robotizada. E assim foi feito.

Raider_profile_

Em forma de foice e medindo 9 metros X 6 metros, o atual raider possui dois canhões e mísseis. Quando destruído, suas vivências de combate são, digamos, downloadeadas para uma nave de “ressurreição”, onde o novo raider “renasce” com mais experiência, e, portanto, mais hábil e letal. Espiritismo cibernético. Justamente por isso, são capazes de sentir a dor e o trauma da “morte”. Não sabemos se existem psicanalistas no Império Cylon para tratar desses casos.

Abordando – entre outras questões filosóficas interessantes – o fato de uma das causas do conflito entre Cylon e os Humanos ser religioso – na série, os humanos são politeístas e os cilônios, monoteístas (!), os diferentes pontos de vista de cada lado (os cilônios consideram os seres humanos “maus” devido aos acontecimentos da primeira Guerra Cilônia), as crises de identidade dos cilônios humanos e as tradicionais referências à mitologia terrestre, a série foi um sucesso e só terminou este ano, com chave de ouro.

Curiosidade: o ator Richard Hatch, que interpretou o capitão Apolo na série original, volta nesta série como Tom Zarek, um ativista político que passa ao terrorismo ao explodir um prédio do governo, antes do ataque de Cylon (comentário: os anos não lhe foram gentis…)

Bem, espero que agora, quem chegar até aqui procurando por cylon raiders e similares fique satisfeito. Eu ficaria. Ou não?

Saudações.

FONTES:

http://www.battlestarwiki.org/

http://en.wikipedia.org/wiki/Battlestar_Galactica

http://www.imdb.com

http://www.tecr.com/galactica/capships/basestar.htm


Movies

Abril 17, 2007

O Bom Pastor – burocrata-padrão trai tudo e todos pelo seu caso incurável de amor à pátria. O filme conta a história de Edward Wilson (Matt Damon), funcionário do governo americano que ingressa na carreira de X-9 ao ser designado para o escritório do OSS – Office of Strategic Services, órgão da espionagem americana - em Londres, na II Guerra Mundial. Tendo se destacado no trabalho, é convidado pelo seu mentor, gal. Bill Sullivan (Robert DeNiro), juntamente com um seleto grupo, a estruturar a CIA, criada no pós-guerra em substituição ao OSS. Dada a natureza do trabalho, seu afastamento da família acaba chegando a um ponto sem volta. Interessante que, no filme, ele é casado com Angelina Jolie, mas ele prefere dormir enrolado na Star and Stripes. Inspirado em fatos e pessoas reais, trata-se de um excelente filme. Tudo (ou quase) o que você queria saber sobre a CIA e não tinha coragem de perguntar.

300 – vou tergiversar um pouco: outro dia, vendo um episódio do “No Reservations“, programa do chef Anthony Bourdain, ele se encontra numa festa indiana e no alto-falante da praça, toca o tema de “Top-Gun”. Bourdain comenta: “Este é o filme mais gay já feito”. Bom, esse título passa a ser de 300. Um monte de homens musculosos e depilados se atracam com milhares de outros, comandados por um destaque de escola de samba montado num carro alegórico. Joãozinho Trinta ficaria com inveja. O filme está na categoria “bonzinho, mas nada que você irá se lembrar depois de algum tempo”.

Maria Antonieta – história da pobre menina rica Maria Antonieta (Kristen Durst – aliás, acho que Gwylneth Paltrow, Cameron Diaz e Kristen Durst são a mesma pessoa), tirada do seu lar aos 15 anos para casar com o bundão do Luiz XVI em Versailles. Até o rapaz descobrir que os bebês não vêm da cegonha e ele precisa ter uma participação se quiser um herdeiro para o trono, leva tempo e as cobranças aumentam. O filme começa de um jeito que não apreciei, com música pop. Achei que viesse mais uma chatice modernosa. Depois engrena e fica bem interessante, mostrando o terrível cotidiano de fachada palaciana. Mas, no saldo final, cheguei à conclusão que preferi mais “Encontros e Desencontros”, da mesma Sofia Coppola.

As férias de Mr. Bean – ENFIM, uma comédia que não faz menção a escatologias, como flatulências, vômitos e outras emanações corpóreas. Oremos, irmãos. Só por causa disso, o filme já larga na frente. A história já dá para imaginar: Mr. Bean (Rowan Atkinson) ganha uma viagem a Cannes e se mete em todas as confusões que já conhecemos do programa de TV, daquelas que dá vontade de entrar na tela e dar-lhe uns safanões para deixar de ser burro. Vá e divirta-se (até porque o próprio disse que será o último filme do personagem).


Cinema é a maior diversão

Março 19, 2007

Como tenho ido pouco ao cinema ultimamente – depois de um frenesi de ver até dois filmes num mesmo dia – segue a resenha de duas comédias que desopilaram um pouco este fígado:

Borat – Imagine um “Casseta e Planeta” bem mais selvagem e sem limites em suas pegadinhas nas ruas. Isto é Borat. O ator Sacha Cohen possui um programa na TV londrina com esses esquetes. No filme, ele interpreta Borat, o segundo melhor repórter do Cazaquistão, numa jornada aos EUA para investigar o american way of life. No caminho, se apaixona pela estrela baywatcheriana Pamela Anderson, ao vê-la na TV. O mais engraçado é que a maior parte dos entrevistados não sabe que o dito cujo é um ator e pensam que ele veio mesmo do Cazaquistão, o que gera alguns comentários bem constrangedores (e que mostram o preconceito do americano). É algo de descacetante a briga entre Borat e seu produtor no quarto do hotel. Muito engraçados também a abertura, letreiros e créditos, em alfabeto cirílico e sacaneando as pomposas aberturas com marchas patrióticas de documentários da extinta URSS. Curiosidade: outro dia, o ator levou uns tapas em NY ao entrevistar um passante, que, pelo visto, não estava muito a fim de brincadeiras.

Scoop – O Grande Furo – A mais recente comédia de Woody Allen. Um jornalista morre e recebe uma dica no Além de que um famoso playboy londrino (Hugh Jackman), filho da elite imperialista, é o assassino do tarô, serial-killer que anda aterrorizando Londres. Daí ele passa a dica para Sondra (Scarlet Johansson), jornalista iniciante, durante um show de mágica de Splendini (Allen), e os dois vão tentar se infiltrar na vida do garotão para comprovar se ele é ou não o tal maníaco. Divertido, mas prefiro muito mais “Match Point”, do ano passado (e que era um drama). Sabe filme que você começa a calcular mentalmente quanto tempo falta para acabar? Então.


Tio Oscar

Fevereiro 27, 2007

Aproveitando o embalo, mais uma leva de críticas dos filmes que passaram por esta retina na última semana:

A Rainha – Bastidores do poder. Quando Lady Diana morre em Paris, em 1997, o fato comove o mundo e gera um imenso mal-estar na Inglaterra, pois a Rainha Elizabeth (Helen Mirren) – famosa por não ir muito com a cara da ex-nora – insiste em se manter distante da histeria coletiva e observar estritamente o protocolo monárquico para tais ocasiões, como por exemplo, não botar a bandeira real a meio mastro, pois Diana não era mais um membro da família. Tais atitudes atraem a ira da população e Tony Blair (Michael Sheen), à época recém-empossado no cargo de primeiro-ministro, contorna a situação, fazendo a cabeça da Rainha para se converter aos anseios da massa. Dito assim, parece até uma história de fuxicos familiares, mas o filme é muito mais do que isso. É delicioso ver o embate entre o tradicionalismo real, onde tudo é milimetricamente estudado para que as mensagens se façam representar de maneira inequívoca, e e o novo modus operandi, representado pela cultura do espetáculo e da celebridade. Mais que justo o Oscar para Helen Mirren, com uma interpretação espetacular da Rainha Elizabeth.

Pecados Íntimos – Em um bairro perfeito, cheio de gente perfeita igual a um comercial de leite desnatado ou pasta de dente, as coisas na verdade demonstram não ser bem assim. Mulher (Kate Winslet) cansada do marido que vive em sites pornôs em vez de comparecer pelo menos uma vezinha na semana, se envolve com o bonitão do bairro, bon vivant sustentado pela mulher workaholic (Jennifer Connely). Ao mesmo tempo, um exibicionista que acabou de cumprir pena por suas taras volta a morar no bairro com a mamãe, o que gera indignação dos residentes, temerosos pela integridade de suas crianças. Sabe aquela inveja que nós temos diante dos “perfeitos” que vemos no nosso dia-a-dia? Relaxe, não é nada disso. Aquele casal lindo e rico briga igual ao diabo, aquela mulher que você deseja ardentemente e está com outro cara não sabe transar, aquele maurício que trabalha com você e tira onda de profissional perfeito, com cara de “hmmmmm”, é um tremendo dum alcóolatra ladrão, aquele carro importado vai ser roubado, enfim. Ria dessa gente. Drama excelente.

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima – dois filmes de guerra que se complementam, pois mostram duas visões do mesmo conflito. Dirigidos por Clint Eastwood, o homem-uísque, que fica bom depois de velho. A Conquista da Honra mostra o esforço para a tomada de Iwo Jima, árida ilha que só vale alguma coisa por ser parte do próprio território japonês e pela sua posição estratégica. Após a famosa foto da bandeira, os envolvidos (três que sobreviveram) viram arroz-de-festa em todos os EUA, a mando do governo americano, que está na pindaíba e quer ver se levanta uma grana com o povão para continuar a guerra. Ali vemos as “correções” da realidade, num prenúncio da ditadura do marketing que viria anos depois. Exemplo: a bandeira fotografada na verdade é a segunda, pois a primeira foi apanhada a mando do general do pelotão, que não queria vê-la posteriormente de souvenir no gabinete de algum político. Um dos soldados que supostamente aparecem na foto – maneira de dizer, pois não se vê o rosto deles – na verdade não estava lá, e por aí vai. Durante os eventos para passar a sacolinha, vemos a diferença de personalidade entre os três soldados – o índio (Adam Beach) é o mais revoltado com a encenação. Sempre se bota alguém que pertence a uma minoria com sendo o puro, o inconformado com a hipocrisia wasp, mas isso é outra história. O galã (Jesse Bradford) é o mais empolgado. Depois ele vai ver que é apenas uma ínfima peça do sistema. E, por último, o enfermeiro (Ryan Phillipe) é o mais centrado de todos. Faz o que tem que fazer e funciona como equilíbrio dos outros dois.

Já “Cartas de Iwo Jima” mostra toda a preparação que o pelotão japonês na ilha faz para enfrentar o iminente ataque americano. Pelo olhar de um recruta (Kazunari Ninomiya) que era padeiro na vida civil, vemos o dia-a-dia dos soldados comuns, alistados praticamente à força (com uma edulcorante congratulação pela oportunidade de servir ao Imperador…). Sua luta maior talvez não seja nem contra os americanos, mas contra o cruel tratamento dispensado pelos superiores, a escassez crônica de recursos (lembrem que por essa época, o Japão já estava mais para lá do que para cá) e as doenças provocadas pela água insalubre na ilha. Além do pobre ex-padeiro e ainda-não-soldado, que tem que encarar a rabuda como os outros, enquanto os governantes ficam no bem-bom, como sempre acontece nessas ocasiões, o outro grande destaque do filme é Ken Watanabe (O Último Samurai), interpretando o general enviado para comandar o pelotão. Sua presença digna e impressionante dispensa apresentações. Eu compraria um carro usado desse homem. Algumas cenas da batalha são comuns aos dois filmes (mas não os personagens). Achei ainda melhor que “A Conquista (…)”. Uma pena só ter ganho o Oscar de edição de som. Qaundo eu estiver em Hollywood, mudarei esses critérios.


Na Telona

Fevereiro 15, 2007

Dando vazão ao meu lado “crítico atormentado de cinema” (no bom sentido, por favor), mais uma lista dos filmes que andei vendo por aí:

O Último Rei da Escócia – Playboy escocês se forma em Medicina em 1971 e, com a cuca cheia de puro malte e um baseado para rebater, resolve ser uma ONG ambulante, escolhendo praticar a medicina social da libertação em Uganda. Ali é convidado a ser o médico particular de nada mais, nada menos do que Idi Amin Dada, que acabara de tomar o poder. No começo tudo são flores, depois o garoto vai ver a furada em que se meteu. A África como ela é II. História muito boa, baseada num livro do britânico George Foden (atenção revisão, o sobrenome é esse mesmo), e um desempenho es-pe-ta-cu-lar de Forrest Whitaker como Amin.

O Homem Duplo – Num futuro próximo de você, a guerra contra as drogas atingiu o auge (peraí, mas isso não foi em 1990?) e um agente recebe a missão de vigiar um grupelho de viciados para rastrear a origem da droga do momento, a Substância D. Só que o malandro joga dos dois lados, pois ele também é usuário. O filme foi todo feito em rotoscopia, técnica que transforma os fotogramas em quadros de desenho animado, gerando um efeito interessante de se ver. Participação de Neo, quer dizer, Keanu Reeves, Wynona Rider (a mesma que afanou não-sei-o-que de uma loja nos USA) e Woody Harrelson. A narrativa é meio arrastada, mas no final engrena e mostra-se bem mais complexa do que se poderia imaginar.

A Grande Família – seria um ótimo episódio do seriado na TV, mas como filme deixa a desejar, pois acaba cansando depois de 2 horas de projeção…

À Procura da Felicidade – Homem come o pão que o capeta amassou e pisou três vezes em cima, até se inserir na sociedade capitalista consumista bolivariana americana  (?!?!?!). Baseado numa história real, Will Smith interpreta Chris Gardner, vendedor de equipamentos médicos fracassado, que, com um filho para criar, decide se inscrever como estagiário numa corretora de valores em San Francisco, no início da década de 80. Até o final feliz, ele passa por todas as desgraças possíveis, igual ao Coyote do Papa-léguas. Programão.

Apocalypto – Indígena assiste ao massacre da sua aldeia pelos guerreiros maias imperialistas e é capturado, junto com os sobreviventes homens do sexo masculino, para ser oferecido em sacrifício aos deuses. A vida tem dessas coisas, uma hora você está em cima, outra hora você está embaixo. Falaram muito que este filme era de uma violência ímpar, de causar engulhos, mas, na boa: achei muito menos violento que “A Última Paixão de Cristo” e “Sin City”, por exemplo. Nada que não tenha aparecido nos filmes de Stallone e Schwarzenegger da década de 80. Pode-se criticar Mel Gibson pelos seus pensamentos, mas que o cara é bom diretor, isso é. Agora, se você é do tipo que achou “Procurando Nemo” violento, então passe a 10 km de distância do cinema onde estiver esse filme.