Noronha

Março 16, 2007

Fernando de Noronha é um lugar mítico no imaginário do turista brasileiro. Uma espécie de Shangri-Lá, Eldorado e Terra Prometida misturados, da qual todos já ouviram falar, todos desejam ir e tudo é líndu, como diria Caetano. E, de fato, a ilha entrega o que promete. Porém, não espere muitas mordomias, pois as opções bancáveis de hospedagem (*) são, em sua maior parte, pousadas domiciliares. Não se assuste com o termo; quando o turismo em Noronha começou a ser explorado no início da década de 90, elas eram realmente casas de moradores onde o aventureiro iria dormir no quartinho dos fundos e compartilhar o café, o almoço, a janta e a novela com a família residente. Hoje em dia, graças a um programa de melhoramentos implantado pela administração da ilha, todas oferecem quartos individuais, geralmente em anexos construídos ao lado da residência original, com banheiro, frigobar, TV e etc. Mas a infra-estrutura (ou a falta de) continua sendo um problema. Muitas vezes falta água, pois a ilha não tem nenhuma fonte de água doce e depende do único dessalinizador de água do mar instalado no local. Está previsto o início de operações de outro dessalinizador em 2007, o que suprirá todas as necessidades dos moradores e turistas.

A reforma do aeroporto local em 2006 também foi um problema, pois todos os suprimentos vinham nos aviões da Varig. Além da crise que a companhia viveu em 2006, as obras impediram o pouso dos seus jatos 737. Somente os aviões da Trip, bimotores que não têm espaço para grandes cargas, podiam aterrissar durante as obras. Isto gerou uma certa escassez de mantimentos, prejudicando os donos de pousadas e o turismo local. Mas agora a situação está normalizada.

A não ser que você seja milionário e tenha seu jatinho ou iate particular, a opção para se chegar a Fernando de Noronha é por vôos diretos que saem de Recife, Fortaleza ou Natal, pelas companhias já citadas (Varig e Trip). Outros pontos de partida envolverão conexão e um pernoite nas cidades acima. Assim, se você for em pacote, faça como o viajante profissional Ricardo Freire diz: para compensar o trabalho e a verba dispendidos, prolongue a estadia em Noronha por mais dias do que o padrão das agências de viagens (3 noites).

Outra opção é o cruzeiro da CVC no Pacific, o único do litoral brasileiro que faz o percurso e tem saídas o ano inteiro, geralmente de Natal. Como isto pode envolver um trajeto de avião até o Nordeste, é uma opção mais cara, e nem todo mundo gosta de cruzeiros.

Em pacote, a reserva na opção “pousada domicilar” costuma ter uma distribuição-surpresa, de acordo com as vagas. Eu fui em maio de 2005 e caí na Colina dos Ventos, uma pousada bem agradável e com preços acessíveis, no alto de uma pequena colina e com vista para o morro do Pico. Outras opções, estas já em uma categoria mais acima, incluem a Pousada do Zé Maria, figura folclórica da ilha, a Pousada da Morena e, para quem pode pagar,  a Pousada Maravilha, do Luciano Huck, esta com diárias a preços módicos de R$ 1.420,00 na alta temporada (consulte outras opções de pousadas de charme no blog anterior do Ricardo Freire).

Para circular pela ilha, a opção são os bugres. Ou uma linha de ônibus que só passa de hora em hora. Sendo assim, se você não estiver com os passeios previamente contratados, informe-se na pousada e alugue um.

Há várias opções de restaurantes na ilha, inclusive nas já citadas pousadas do Zé Maria e da Morena. Como estava gripadaço na época, freqüentei o Flamboyant, restaurante simples e a quilo na praça de mesmo nome, e a cinco minutos de caminhada da Colina dos Ventos.

Paga-se uma taxa de permanência na ilha. Os preços e o formulário eletrônico podem ser vistos aqui.

Com os trâmites finalizados, ao embarcar para Noronha, peça para sentar na janela do lado direito. Os comandantes sempre dão um rasante pela ilha para se tirar fotos, numa espécie de boas-vindas.

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Evite filas. Chegue com a taxa de permanência já paga, através do boleto impresso.

Saiba que Fernando de Noronha é cortada pela menor estrada federal do Brasil, a BR-363. Este vai ser seu eixo de circulação pela ilha.

Tire uma manhã para conhecer algumas praias do mar de Dentro – a nomenclatura é de acordo com a posição; o trecho da ilha voltado para o Brasil (oeste) é o mar de Dentro, o trecho para a África (leste) é o mar de Fora.

Este percurso pode ser feito a pé mesmo, se você estiver hospedado próximo a Vila dos Remédios. Começe pela praça central, onde há o palácio São Miguel (a sede da administração) e a igreja Nossa Senhora dos Remédios. Suba até o forte de mesmo nome para apreciar a vista do mirante.

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Abaixo do forte, está a praia do Cachorro – tem esse nome devido a uma fonte com a face de um cachorro, em bronze. Bem tranqüila para banhos. Indo para a esquerda, em direção ao morro do Pico (foto acima), você vai passar pela praia do Meio, que é um pequeno trecho entre o Cachorro e a próxima praia, da Conceição, onde também se pratica o surfe.

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Não sei, mas me deu uma certa inveja de quem tinha essa casa ao pé do morro do Pico…

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Escolha em qual passar o resto da manhã e divirta-se. No porto Santo Antônio, à direita da praia do Cachorro (e onde há um restaurante simples para o almoço), pode-se fazer um passeio de escuna à tarde, contornando a ilha. É costume parar em frente a baía do Sancho para um mergulho de snorkel, e apreciar a fauna marinha. Pode-se também reservar pescarias de barco, além dos passeios. Veja aqui.

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Você já deve ter ouvido falar – de noite, o grande programa é ir na palestra do Ibama, realizada no auditório do Tamar (perto da Alameda do Boldró). Começa por volta das nove horas. Vá e veja.

Além dos mergulhos de snorkel, Noronha é uma ótima oportunidade para mergulho de cilindro. As operadoras oferecem tanto o batismo quanto mergulhos profissionais, dependendo do seu nível, é claro. Infelizmente, sempre que me apareceu a oportunidade de um mergulho com scuba, eu estava gripado e com sinusite, fator proibitivo para este tipo de atividade.

Os contatos das operadoras de mergulho podem ser vistos aqui.

Vale o clichê: ir a Fernando de Noronha e não fazer nem um mergulhozinho de snorkel é ir a Roma e não ver o Papa. Não cometa esse crime.

Em dois dias você terá que acordar cedo: um para observar os golfinhos na baía dos Golfinhos (mar de Dentro), e outro para nadar no Atalaia (mar de Fora), praia com piscinas naturais que se formam na maré baixa, com acesso restrito a 30 pessoas por vez. Também não se pode usar filtro solar, para não poluir a água.

Tire um dia para conhecer as outras praias de dentro. Aqui você vai precisar de condução e equipamento snorkel para levar. Este passeio pode ser feito pelas agências, que dispõem de veículos e de aluguel do equipamento necessário.

A primeira parada será na praia da Cacimba do Padre, onde há o morro Dois Irmãos. Famosa por sediar etapas do campeonato de surfe no verão, também é muito boa para banhos (fora do verão, quando o mar fica calmo) e caminhadas, já que é uma das maiores em extensão.

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No canto esquerdo da praia, está a trilha pelas pedras que leva até a belíssima baía dos Porcos, com um pequeno trecho de areia de uns 100 metros e rochas vulcânicas que formam piscininhas naturais. Esta é a segunda praia mais bonita do Brasil. Também é um ótimo lugar para a prática de snorkel, onde você vai ver moréias, budiões e sargentinhos - faça somente em grupo.

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E cuidado ao pisar nas fendas entre as rochas nas praias, principalmente aquelas com água do mar – você pode encontrar uma moréia em uma delas, que não vai gostar nada de ser incomodada.

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A seguir, a praia mais bonita do Brasil – a praia do Sancho. Como tudo que é bom envolve um sacrifício, para chegar aqui, você vai ter que descer uma escadinha de ferro em meio as pedras da falésia, e depois uma escadaria em caracol entalhada nas rochas. Depois vai ter que subir, é claro. Mas se você quiser moleza, você pode vir de barco. Não deixe de mergulhar aqui.

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Veja que Noronha é bonito até com chuva – esta é a praia do Boldró.

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Agora dirija-se às praias de fora. No caminho, passe no Museu do Tubarão, onde você poderá degustar as duas especialidades da ilha: o bolinho de tubalhau (carne de cação salgada) e o tubaburguer (hambúrguer feito com a carne do cação).

Aprecie a vista do buraco da Raquel e da enseada da Caieira – não é o que você está pensando… Diz a história que a filha excepcional de um comandante se escondia nesta rocha, durante suas crises. Atualmente, é proibida a descida, com o fito de preservar a vida marinha (fonte: site oficial da ilha).

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Em seguida, vá até a baía do Sueste, onde você pode encontrar tartarugas na praia ou durante o mergulho. Tenha sempre cuidado ao se aproximar de um animal selvagem. Não pense que ele é o seu gatinho de estimação. Nunca fique na sua frente, pois ele pode se assustar e sair em sua direção. Bom senso é tudo. Ponha-se no lugar do bicho: você estava ganhando sua vida, procurando alguns peixes para se alimentar, e de repente, chegam esses gigantes chatos e barulhentos, em sua volta. E aí?

Respeite a natureza e você será respeitado.

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E conheça a praia do Leão – a terceira mais bonita do Brasil. Por aí você sentiu o nível. Noronha tem as três mais do país.

Esta praia tem esse nome devido a pedra que se assemelha a um leão-marinho, e é um grande local de desova de tartarugas.

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E, nas ruínas do forte do Boldró (voltando para o lado de dentro), termine o dia com um belo pôr-do-sol. Reconheço que seria mais belo sem as nuvens, mas faz parte.

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Atualização de hoje: como viu o leitor, depois de tudo isso, é só escolher quais as praias que merecem um “vale a pena ver de novo” e curtir mais uns dias.

(*) Ainda sobre os preços, como já se deve ter percebido, são mais caros em Noronha. Basta dizer que a menor unidade monetária da ilha é a nota de dois reais. Nada custará menos que isso… E quanto a hospedagem, esteja ciente que pousadinhas terão preços de hotéis 4 estrelas; pousadas custarão o mesmo que hotéis 5 estrelas; e as pousadas de charme muitas vezes terão preço de resort. Mas como já disse, não hesite: o paraíso envolve sacrifícios para sua entrada… Fernando de Noronha é certamente um dos mais belos lugares para se conhecer durante sua passagem por este planeta. ;)